Onde não puderes ser feliz, não te demores...

A frase original, muitas vezes injustamente atribuída à pintora mexicana Frida Kahlo ou ao pensador brasileiro Augusto Branco, mas da autoria de Eleonora Duse, famosa atriz italiana do século xix, é de facto “ onde não puderes amar, não te demores”, uma das minhas preferidas e que cito várias vezes, mas que pela profundidade que emprega permite com o mesmo efeito este tipo de declinações. 

E acredito profundamente que nunca devemos empenhar muito do nosso tempo onde soubermos que não poderemos amar, onde não nos será permitido ir mais longe, mais além, onde de uma ou outra forma nos seja percetível (por muito que às vezes nos seja difícil admitir) que ali não nos será dada a oportunidade de sermos felizes...

Em tudo na vida, seja num plano mais emocional , familiar ou pessoal, ou até num nível profissional, sou um defensor acérrimo do índice de felicidade interna bruta, ou seja, da procura de soluções para a nossa vida que nos deixem confortáveis e reconhecidos, valorizados, motivados. É óbvio que nem sempre isso é possível na sua plenitude, vezes há que a vida nos obriga a ser mais racionais para subsistirmos ou termos melhores condições de vida, mas sinto que quando consigo exponenciar mais as minhas capacidades, quando retiro maior rentabilidade dos meus atributos é quando me sinto bem onde estou, acredito no que faço e com quem faço. Quando não somos felizes, o resultado não vai com paixão, condimento fundamental para a irreverência dos projetos.

E existem diversas formas de o percebermos. No trabalho, quando não nos permitem crescer e evoluir ou quando o ambiente não é o melhor e deixamos de ter prazer em acordar de manhã para tentarmos a nossa parte para mudar o mundo, quando não nos entendemos com colegas, chefes ou empregados, quando alguém nos faz a vida negra com outras intenções. Quando não nos pagam. Na vida, quando não reconhecem a nossa dedicação, não valorizam a nossa amizade, o nosso amor.

Sou daqueles que dão muito valor à vida. Adoro andar por aqui e, por isso, cada vez menos me dou ao direito de demorar onde percebo que não poderei ser feliz ou onde não me derem oportunidade para amar, e cada vez mais consigo perceber de uma forma rápida onde não sou bem-vindo ou onde me querem bem. E está no nosso crescimento pessoal, emocional, físico e sensorial o segredo para o que mostramos através das nossas atitudes, é isso que molda a nossa personalidade e a nossa imagem.

Faço, por isso, tudo o que está ao meu alcance, todos os dias, para que a felicidade seja uma constante da vida, como o sonho de António Gedeão na sua “Pedra Filosofal”, “tão concreta e definida como outra coisa qualquer”. É nesse preenchimento permanente que assento as minhas raízes, nunca esquecendo, logicamente, que não podemos sempre fazer apenas o que queremos ou o que mais gostamos, que, por vezes, a vida também nos exige sacrifícios, mas que nunca é tarde para corrermos atrás dos nossos sonhos, para, se não estivermos bem, largarmos tudo, irmos por aí à procura dum mundo melhor, de quem nos quer bem. E poder demorar-me para sempre onde me deixarem amar, ser feliz...

Texto de: José Paulo do Carmo
Publicado em: 08/04/2016
Em: http://www.ionline.pt/artigo/503637/onde-nao-puderes-ser-feliz-nao-te-demores-?seccao=Opiniao_i

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